Comerciante guarda registradora do pai e preserva memórias da família

Comerciante guarda registradora do pai e preserva memórias da família

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Quem já passou pela Rua Barão do Rio Branco durante o horário comercial sabe que o movimento costuma ser intenso, com lojistas e funcionários geralmente tentando atrair a atenção de possíveis clientes entre todas aquelas pessoas que vão e vem sem parar. Como em outros pontos da região central de Sorocaba, alguns estabelecimentos estão no mesmo endereço há décadas e, com uma adaptação ou outra, preservam valorosas histórias, verdadeiros patrimônios familiares ou até mesmo para a cidade.
Encontrei um caso assim há alguns meses na loja A Econômica da Barão e, praticamente sem perceber, deslanchei em uma boa conversa com Alberto Athiê, de 72 anos. Poderia ficar mais tempo ali conversando com ele e a esposa, Cristina Athiê, mas me restou aproveitar bem os poucos minutos que eu tinha em um diálogo que quase se transformou em uma entrevista.
Sorriso fácil e simpatia de comerciantes? Posso apostar que essas são características do casal e não treinamento, experiência e vontade de vender. Eles fazem naturalmente o espaço acolhedor e praticamente convidam a uma boa conversa.
Cristina estava mais ocupada com os atendimentos, mas Alberto, mesmo se movimentando entre os balcões e prateleiras, deixou o papo fluir. O que chamou a atenção e abriu a porta para o bate papo foi uma inscrição na parede anunciando aos clientes que a loja está lá desde 1929. Bastou isso para abandonarmos o tema que me levou ao local (e que eu voltarei para abordar em outro texto) e para que o senhor Athiê me contasse que cresceu, aprendeu e continua aprendendo diariamente ali. A registradora de Alfredo Athiê
“Era do meu pai (a loja), um sírio libanês que foi um dos primeiros a chegar por aqui (Sorocaba). Quando ele abriu, em 29, era loja de calçados e chamava Casas Athiê, depois mudou para roupas”, destaca Alberto. Enquanto fala, os olhos dão um giro pelas prateleiras certamente visitando as memórias e como se ele quisesse que eu também pudesse ver como era o ambiente no início. As histórias do imigrante Antônio Athiê e da loja orgulham Alberto que atribui a elas valores inestimáveis: “Orgulho sim, porque é nossa história. Já aconteceu muita coisa, mas a gente continua aqui”.
E não são apenas as paredes, as prateleiras e as memórias que preservam a história do comércio da família Athiê e, porque não, do comércio sorocabano. Em local de destaque no balcão está a maior relíquia, como define o próprio Alberto Athiê: uma caixa registradora National, o primeiro modelo de máquina elétrica fabricada e que já emitia cupom fiscal.
Cuidado como um membro da família, o equipamento está em perfeito estado e basta estar interessado para ganhar explicações, demonstrações e saber mais detalhes da peça. Se hoje a máquina não é mais a responsável por registrar o número de clientes atendidos e qual foi a forma de pagamento (sim, ela tem um contador) e acaba servindo para apoiar celulares e recados que não podem ser esquecidos, isso de forma alguma a desvaloriza. “Essa está na família desde 1952 quando meu pai comprou uma outra loja e ela (a máquina) veio junto. Tenho cuidado com ela, também faz parte da história que a gente quer guardar”, completa Alberto Athiê.
Cerca de vinte minutos dentro da loja renderam esses registros, não era para ser e não foi uma entrevista e a conversa não teve o propósito de uma reportagem, apesar de eu ter anotado algumas falas e dados passados por Athiê. Com celular na mão, pedi para fazer umas fotos e disse que pensaria em uma maneira de passar adiante um pouco daquilo que conversamos. Por isso, assim que surgiu a ideia da coluna “Agenda Positiva” da ASI pensei que seria o momento de não manter só comigo as imagens, as palavras e a maneira que Athiê cuida das memórias familiares. Tem muita história boa por aí, muita paisagem bonita, muita referência relevante para passarmos adiante, basta querer ver e compartilhar. Essa é uma pequenina contribuição.

Texto e fotos – Evenize Batista, jornalista

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